Por Gabriel Dread -
Irradiando Luz
No livro
Walking with the Poor, Bryan Myers estabelece diferentes esferas de entendimento da pobreza:
- Pobreza como défict: falta de alguma coisa, como alimento, abrigo, oportunidade, emprego, etc. Esta visão é deficiente pois parece que, se a pessoa obtiver o que falta a ela, deixará de ser pobre. Isso geralmente acarreta em doações aos pobres, não melhora auto-estima e a pessoa não é tratada como ser humano.
- Pobreza como situação embaraçosa: diversos fatores podem deixar a pessoa em situação penosa, tais como pobreza material, fraqueza física, solidão, vulnerabilidade e falta de poder, além da pobreza de espírito e falta de espiritualidade.
- Pobreza como falta de acesso ao poder social: distância das instâncias decisórias, do Estado, da comunidade política, das corporações econômicas e sociedade civil.
- Pobreza como falta de empowerment (“empoderamento”): os pobres estão aprisionados em uma complexa moldura ou sistema cultural , social, biofísica, pessoal e espiritual.
- Pobreza como falta de liberdade para crescer: os pobres estão aprisionados em uma cadeia de limitações físicas, mentais, espirituais impostas por opressores, pessoas detentoras de poder que, apesar de oprimirem, são também oprimidos.
Paulo Freire, em sua
Pedagogia do Oprimido, afirma que:
“Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscarem recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, MAS RESTAURADORES DA HUMANIDADE EM AMBOS. E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos – LIBERTAR-SE A SI E AOS OPRESSORES. Estes, que oprimem, exploram e violentam, em razão de seu poder, não podem ter, neste poder, a força de libertação dos oprimidos nem de si mesmos. Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar a ambos. Por isto é o poder dos opressores, quando se pretende amenizar ante a debilidade dos oprimidos, não apenas quase sempre se expressa em falsa genenosidade, como jamais a ultrapassa. Os opressores, falsamente generosos, têm necessidade, para que a sua “generosidade” continue tendo oportunidade de realizar-se, da permanência da injustiça. A ‘ORDEM’ SOCIAL INJUSTA É A FONTE GERADORA, permanente, desta ‘generosidade’ que se nutre da morte, do desalento e da miséria.
Dái o desespero desta ‘generosidade’ diante de qualquer ameaça, embora tênue, à sua fonte. Não pode jamais entender esta ‘generosidade’ que a verdadeira generosidade está em LUTAR PARA QUE DESAPAREÇAM AS RAZÕES QUE ALIMENTAM O FALSO AMOR. A falsa caridade, da qual decorre a mão estendida do ‘demitido da vida, medroso e inseguro, esmagado e vencido. Mão estendida e trêmula dos esfarrapados do mundo, dos ‘condenados da terra’.
(...) Quem melhor que os oprimidos (...) para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis da sua busca, pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela. (...) Luta que, pela finalidade que lhe deram os oprimidos, será UM ATO DE AMOR, COM O QUAL SE OPORÃO AO DESAMOR CONTIDO NA VIOLÊNCIA DOS OPRESSORES, até mesmo quando esta se revista da falsa generosidade referida.
(...) O grande problema está em como poderão os oprimidos, que ‘hospedam’ o opressor em si, participar da elaboração, como seres duplos, inautênticos, da pedagogia de sua libertação. Somente na medida em que se descubram ‘hospedeiros do opressor poderão contribuir para o partejamento de sua pedagogia libertadora. Enquanto vivam a dualidade na qual ser é parecer e parecer é parecer com o opressor, é impossível fazê-lo. (...) Quase sempre, num primeiro momento deste descobrimento, os oprimidos, em vez de buscar a libertação na luta e por ela, TENDEM A SER OPRESSORES TAMBÉM OU SUBOPRESSORES. A estrutura de seu pensar se encontra condicionada pela contradição vivida na situação concreta, existencial, em que se ‘formam’. (...) Daí esta quase aberração: um dos pólos da contradição pretendendo não a libertação, MAS A IDENTIFICAÇÃO COM SEU CONTRÁRIO”.
Algumas soluções possíveis
Consumo Consciente: Não significa que você não pode fazer comprar ou consumir. No entanto, você pode adquirir produtos que tenham uma vida mais longa ou que sejam de fácil conserto. Você pode, por exemplo, fechar a torneira ao escovar os dentes; cada vez que sete pessoas escovam os dentes com a torneira fechada, economizam 122 litros de água tratada, o suficiente para atender as necessidades diárias de uma criança.
Ou buscar reciclar latas de alumínio, com isso economizando na produção da lata uma quantidade de energia elétrica suficiente para alimentar uma geladeira de energia por dez horas. Ou evitar jogar pilhas e baterias no lixo comum, já que isso significa riscos à saúde quando estes produtos chegam aos aterros sanitários, poluem o solo e, em seguida, as águas.
Ou ainda, preferir empresas que têm o selo Amiga da Criança, dado pela Fundação Abrinq, por exemplo, como uma forma de combater o trabalho infantil no Brasil. (Dicas para o consumo consciente podem ser encontradas no
site do Instituto Akatu – Pelo Consumo consciente)
Redes de Troca: Uma rede de trocas é uma oportunidade de substituir a competição e a ganância pela cooperação e solidariedade, através das trocas de bens, serviços e saberes, sem o uso da moeda (troca direta) ou com o uso da moeda social, resgatando a forma de intercâmbio mais comum e antiga do mundo: o escambo. Além de ser uma prática de consumo sustentável.
O que pode ser trocado:
• Bens acumulados: aqueles itens - em bom estado de conservação e limpos - que estão sem utilidade pra você, mas que podem servir pra outra pessoa. Ao trazer para as trocas você faz a energia circular e contribui para a redução da produção, o que auxilia grandemente nos cuidados para com nosso querido planeta. Ex: roupas,utensílios domésticos, calçados, livros, cd’s, dvd’s, vinil, revistas, artesanatos, móveis, bijouterias, sapatos, ferramentas, etc.
• Bens produzidos pelas próprias pessoas: alguns exemplos são mudas, sucos, bolos, geléias, granola, queijos, , grãos, biscoitos, tortas, pães, verduras e hortaliças, artesanatos, perfumes, roupas, panos decorativos, luminárias, papel reciclado, instrumentos, etc
• Saberes e Serviços: massagens, fotografia, reparos diversos, eletricista, costuras, jardinagem, hospedagem, carpintaria, aulas de música, percussão, yôga, dança, consultorias, assessorias, reiki, massagem, serviços odontológicos, de costura, etc.
(Exemplo de rede de trocas global:
FreeCycle Network)
Microcrédito e a moeda social: Também chamada de moeda circulante local, é uma moeda, complementar à moeda corrente, criada pelo Banco Comunitário. O circulante local objetiva fazer com que o “dinheiro” circule na própria comunidade, ampliando o poder de comercialização local, aumentando a riqueza circulante na comunidade, gerando trabalho e renda. Desta forma a Moeda Social torna-se componente essencial nas estratégias dos bancos comunitários. Os créditos podem ajudar no crescimento econômico do bairro ou município gerando novas riquezas. Mas são as moedas sociais que asseguram o desenvolvimento ao favorecer que essa riqueza gerada circule na própria comunidade
(Ex:
Muhammad Yunus – ganhador do Nobel da Paz e
Banco Palmas, no Brasil).
Agrofloresta: ou Sistema Agroflorestal - SAF: É um conjunto de técnicas que reúne agricultura e preservação ou recomposição das florestas. São plantações de florestas para suprir as necessidades do homem. Usa a dinâmica de sucessão de espécies da flora nativa para trazer as espécies que agregam benefícios para o terreno assim como produtos para o agricultor. Conseguem ser mais produtivas do que produção monocultural. A agrofloresta recupera antigas técnicas de povos tradicionais de várias partes do mundo, unindo a elas o conhecimento científico acumulado sobre a ecofisiologia das espécies vegetais, e sua interação com a fauna nativa.
Os SAFs, como são conhecidos, são a reprodução no espaço e no tempo da sucessão ecológica verificada naturalmente na colonização de áreas novas ou deterioradas. Não é a reconstrução da mata original porque inclui plantas de interesse econômico desde as primeiras fases, permitindo colheitas sucessivas de produtos diferentes ao longo do tempo (Exemplo de aplicação de agrofloresta: Ernest Götsh, suíço radicado no Brasil).
O que você está esperando? Mãos à obra!
Imagem: Angela 7 Dreams
*
Nota: Veja outras contribuições compulsivas na categoria
parceiros. Se você também gostaria de ter seu artigo publicado aqui no UsuárioCompulsivo, siga
esse link...